Sabina

Sabrina   

     Saia rodada e tênis esportivo, blusa mais justa ao corpo de alça fina, um colar colorido e óculos de sol para um dia mais claro. Pronta para o mundo. Um novo dia. O caderno de coração acompanha a ida para o curso de inglês. Sorriso no rosto, um disfarce para insegurança.
      De manhã bem cedinho, entra no prédio, disfarce okay e alguns hi! para dizer oi aos que passavam por ela, alguns tentam parar, um pouco mais de conversa, o café ainda não fez o efeito esperado internamente. Então, pouca conversa e um andar calculado rumo a sala de aula. A professora simpática dá boas vindas e tenta manter uma conexão para uma boa aula além de tentar fazer com que os alunos falem o tal do inglês. 

     – Oh! Língua difícil de falar… Primeiro pensamento claro de insegurança. 

       A aula flui com erros e acertos, os alunos tentam responder e Sabrina tenta milimetricamente só responder o que tem certeza para evitar o erro. Impossível, o alarme da insegurança apita e a falta de um novo café também. Trabalhar com uma suposta certeza coloca as coisas em um certo patamar de segurança. Ilusório. Pausa para o café.
      Depois do intervalo, os humores dos alunos aparecem de forma mais real, uns mais calados e frágeis diante da nova matéria e outros mais exibidos e falantes. No fundo, todos frágeis. Tentando ser descontraídos e seguros. Final da aula, um pouco mais confiante e com uma ideia que consegue, sim, aprender essa nova língua, afinal quer viver nesse país, então, necessariamente aprender a língua está no topo da lista de objetivos. No caminho, conexão ansiosa com o trabalho e com tudo que precisa fazer, assim que chegar. Não esquecer de responder à mensagem da moça de ontem é a primeira coisa a fazer.  Sabrina segue pelas ruas de Devon. Mudou-se a pouco mais de um ano. Desafiou-se a habitar um novo país. Deixa a ansiedade um pouco de lado e aprecia as flores e o dia de sol. Consegue apreciar até mesmo a chuva e o céu cheio de nuvens. Tenta capturar cada detalhe para guardar na sua gaveta interna dos momentos que a faz sorrir. Assim, monta o seu acervo íntimo.  

       Mais um dia para exercer o que nasceu para fazer. Escutar as pessoas nas suas aflições. Trabalha em uma clínica com vários profissionais da área da saúde mental. Todos ali preparados para ouvir as aflições alheias. Todos ali, na clínica, têm uma relação mínima que seja. As vezes só de trabalho, às vezes fora dali. Sabrina para na sala do café e conversa com uma colega de trabalho sobre o tempo. Tenta se conectar e lembra da professora na aula de inglês. Exercício para a vida, conexão. Atualmente está envolvida nesse projeto, se conectar mais consigo mesmo e com os outros.

– Olá! Como você vai? Não tenho te visto por aqui.                                                            
– Estive com enxaqueca em casa sem poder abrir o olho, acredita?

– Nossa… deve ter sido dias difíceis… 

A conversa termina com a frase:

– É, foi… 

     Não tinha muita intimidade e era difícil estender um assunto quando que para ela, Sabrina, não tinha mais o que perguntar. Na verdade, não deu para perceber quem não quis estender a conversa.

    Portas fechadas, sigilo, tom de luz para um – conte-me tudo o que você quiser e vamos começar. Entra uma pessoa fica 1 (uma) hora e sai, entra um adolescente e fica 35 minutos e depois um casal que fica 1(hora) e 20 (vinte). Água para hidratar. Lembra da mensagem de resposta que ficou de enviar a moça de ontem. Olha o celular, tudo parece estar bem. Mais pessoas chegam para serem ouvidas. Sabrina se sente à vontade na sua profissão. Seja lá o que pode isso significar. Está sempre estudando mantendo a sua terapia e o grupo de supervisão. Gosta do que faz. Tem dias nublados de ansiedades, tristeza e raivas e entende isso como vertentes da vida. Se acha exigente e um pouco superior por ter uma profissão onde tenta compreender pessoas, no mundo paralelo que ela alimenta parece um super poder. Diz que é preciso ter um mundo onde se corre quando não se dá conta da realidade como ela é. Esse mundo normalmente é como a realidade não pode ser.

     Se acha também pragmática e introvertida. Isso a atrapalhava em momentos que precisava se conectar além da sua profissão. Talvez, a atrapalhe até no exercício dela consigo mesma. Ainda não se deu conta disso. 

      Gosta de ter conversas com ela mesma na tentativa de mudar algo que a perturba, algo dentro. Ela mesma não sabe o quê a incomoda. Apenas sente, o incomodo. Fundo. Se mantém sóbria a maior parte do tempo, não que use algum tipo de drogas só que em alguns momentos ela flutua pela própria imaginação, tem sonhos acordados que podem ser roteiro de um filme, cria umas histórias como ninguém, ás vezes até esquece de dizer que é mentira para ela mesma. É engraçado quando se lembra desse detalhe e às vezes, ela mesma se acha insana. Se soubessem desse mundo paralelo, poderiam falar que ela alucina. Sabrina se divertia com a ideia. Gostava de pensar que é um pouco insana. 

– Amor, nossa próxima viagem pode ser para a Índia. 

– Você sabe que eu não tenho a menor vontade de ir até a Índia e você…por que essa ideia agora?

– Fico pensando nos templos budistas, penso em conhecer a fundo e dizem que alguns estão localizados em lugares lindos. 

– A maior parte da Índia é lotada. Gente para todo o lado. Não acho um bom passeio turístico. 

O marido tenta convencê-la, sabendo que a ideia ficará rondando aquela mente persistente.

– Irei sozinha, então.

 Se ela encasquetar, vai mesmo. Pensa o marido um pouco preocupado e risonho com o jeito teimoso da esposa. 

      Uma lista de países fazia parte da vontade de rodopiar pelo o mundo, com as saias rodadas que tanto gostava de usar. Gostava de pôr no papel todos os seus desejos com o foco que por isso, um dia, poderá acontecer só por estar ali escrito. Pura ingenuidade. Um pouco de insanidade também. 

    Com dois filhos na faixa dos 20 (vinte anos), era fácil retornar a sua adolescência. Conheceu a maternidade cedo, uma menina adolescente que acabara de sair do ensino médio. Oscilava em idas e vindas da adolescente, a mãe de dois jovens. Diferentes entre si ajudam a mãe a aprender mais sobre as especificidades dessa idade. Sabrina se interessava pelo tema adolescência, se interessava por pessoas. Como dois seres da mesma barriga podem ser tão diferentes? Era espantoso.

   – Mãe, não estou a fim de falar com a minha avó e quando o meu avô ligar, por favor não saia entrando no meu quarto só porque é o meu avô. O filho mais novo dizia um pouco irritado lembrando da última vez que Sabrina invadiu o quarto com a câmera ligada pedindo que ele falasse com o avô. Aquele, que pouco se conseguia falar então era essa oportunidade que Sabrina tinha para tentar uma interação e uma proximidade dos seus filhos com o avô. Ledo engano, estamos falando de adolescentes. 

   Entre minutos de raiva e compreensão. Facilmente caminhava da sua adolescência a adulta, o agora. Tentava lembrar como era nesses momentos família e mesmo assim era difícil respeitar e compreender um ser que ontem era tão pequeno falando assim só porque tinha suas divergências com o avô. A vontade de se impor era grande, mas por outro lado sabia que o seu pai não era lá muito carinhoso com o neto.

     Com o outro filho, tentava se aproximar, eram diferentes, muito diferentes. Se achava frágil perto dele. Disputavam espaços. Esse era o mais velho. Uma relação exigente, muita demanda. Por muitas vezes, não dão conta. Se afastavam, no orgulho e na tristeza que um afastamento de uma mãe com o filho pode causar. Uma relação que trazia uma certa culpa: será que pelo fato de ter passado pela cabeça de Sabrina em fazer um aborto nessa gravidez eles tinham dificuldade na conexão? Nos momentos pós raivas, normalmente depois das discordâncias, esse pensamento pairava na cabeça. Como uma culpa que martela sobre o culpado.

    Ser mãe é árduo, mas tinha o brilho de acompanhar os meninos florescerem, de pequenos a grandes rapazes. Era motivo de orgulho a família que construiu. 

   Os estudos eram parte fundamental da vida para a Sabrina. Interessada em diversos assuntos facilmente se perdia nos livros e artigos que gostava de ler. Está sempre matriculada em um curso. Gostava da sedução do conhecimento e o sentimento não revelado de poder que Sabrina sentia a cada livro ou curso que terminava. Expor-se não era fácil a não ser que algo a puxasse pelas mãos. Aí sim, dizia em alto e bom som.Nesses momentos, precisa se auto dosar para não atrapalhar exposições alheias, mas não tinha o hábito de falar as suas opiniões. Apesar de sempre tê-las em auto e bom som nas ideias. Gosta de ouvir, estudar, tem atração pelo silêncio. Sabe que precisa dizer o que pensa, acha válido, às vezes ela mesmo não se válida. Acha que o que diz ninguém vai dar valor. No fundo ela não se dá.

   Muitas vezes, se fecha e fica calada. Em casa, achavam meio estranho, aprenderam a respeitar.

    Roupas de tecido, cor de rosa suave e óculos escuro, era a outra maneira de ser Sabrina.  Na rotina, nas suas idas e vindas de trabalho, cursos, família e amigos tentava conexões, camuflava o vazio. Em terapia a muito tempo chegava bem perto do buraco desse vazio: é grande, fundo, não sabia se conseguiria ir mais. Pede para a terapeuta recuar. Recuaram. Fala dos meninos, um pouco do trabalho e do casamento. 

   Seguia a vida, tentando não se machucar muito e sentindo as dores que a vida trás com a maturidade e crescimento que vinha alcançando.   Tentando resolver as suas questões tinha uma certa superioridade no sentido de que pela profissão que escolhera tinha que dar conta.  Na humildade íntima e profunda era uma sem-teto do seu próprio interior. O mundo para Sabrina era auto referencial, tudo precisava ser do jeito que ela queria ou sentia uma estranheza muito grande. Oscilava em superioridade e humildade, dona de todo o saber e raiva. Muita raiva. 

    Nesses momentos que se percebia oscilando tentava ter conversas com ela mesma e então domingo pela manhã se vê pensando quem é a Sabrina. Faz essa pergunta para ela mesma, em uma espécie de brincadeira com ela mesma:

– Quem é você, Sabrina?

  Ela pensa e responde em voz alta para poder se ouvir:

– Sou inteligente e introvertida.  Pensa um pouco mais e diz:
– Sou uma moça com dúvidas em tudo e que se culpa por não aceitar de uma forma amigável as diferenças alheias e não sei conviver com quem é diferente de mim.   
  Sabrina tinha se dado conta disso a pouco tempo com as diferenças que vinha percebendo com o marido. 

 O monologo continua:

– Quem é você? 

– Sou alguém que desejo me expressar mais. Ir além dos desenhos, colagens, textos e dança.
  Apesar de não falar muito havia outras formas de expressão. Ela se preenchia dessas formas. 

  Não quis cessar o diálogo enquanto não cessasse a pergunta então, dessa vez foi mais insistente e persistente:

– Vamos, quem é você?

– Sou raiva, ódio e tristeza. Sou também doce, colorida e maternal. Posso ser leve e suave. Ela disse meio espantada com que estava dizendo, mas disse. 

 Diga-me de uma vez:

– Quem é você? 

–  Sou um texto bonito e bem escrito, quero ser desenhos bem desenhados, uma colagem na melhor moldura na parede. Sou também, vazia como uma moldura sem pintura. Sou cheia como uma folha rabiscada na tinta, até o último pontinho branco. Sou indefinida. Falo alto, grito e xingo. Fico muito silêncio também, mas que eu deveria. Sou esperta, brincalhona e interessante. Vixi! Não me reconheço. Sou grito, amargura, pensamento vazio e cheio demais. Conexão e desconexão. Tudo de uma vez só. 

Chorosa, Sabrina se perdeu no seu eu e adormeceu de novo. 

Acordou com um beijo gostoso do seu marido e uma fala de curiosidade:

– Amor, você está bem? 

– Sim. Dormi de novo e sonhei comigo eu me vendo por dentro. 

 O marido riu sem entender muito sobre o quê sua esposa queria dizer e a chamou para tomar o café da manhã. O cheiro do café forte, dos pães frescos deixava a casa com ar matinal. 

Sabrina seguiu o dia pensativa.

   Na 2ª feira, saindo para trabalhar viu Mariazinha na cadeira de balanço, bordando na sua calma de anciã. Ao mesmo tempo que bordava, Mariazinha cantava em um ritmo agradável. 

– Como vai Mariazinha? 

– Vou bem, minha filha. E você? E os meninos? 

 Mariazinha incluía o marido quando se referia aos meninos. 

– Todos bem. 

   Responde Sabrina com uma certa raivinha por Mariazinha chamar o seu marido de menino.

– Agora você vê…um homem de mais de 50 (cinquenta) anos, menino…vê se pode. Esse é o pensamento que vinha a sua cabeça em uma espécie de raiva e frustração por alguém achar o seu marido um menino. Estaria a vizinha apontando algo que Sabrina escondia sobre o seu marido? Por isso esse sentimento de raiva? 

   Mariazinha era especial para Sabrina, então se teve algo raivoso logo passava. Das casas da rua a vista mais bonita é da casa da vizinha, o fundo da casa dava para uns campos verdes e floridos. Dentro da casa sempre tinha sempre um bolo no forno com um cheiro maravilhoso para se comer no café da tarde. Isso cheirava a amor para Sabrina. De vez em quando os netos de Mariazinha passavam uns dias por lá. Além de amor, tinha sorrisos, tinha graça. Sabrina gosta de ir à casa de Mariazinha para conversar, ver as novas pinturas que ela tinha pintado e ouvir uns conselhos de uma senhora com muitos caminhos percorridos. Na vizinhança era comum, o povo ir até a casa de Mariazinha para ouvir uma voz sábia. Uma vez, Sabrina estava por lá passando a tarde com Mariazinha e ajudando a olhar os netos.  Preparavam o lanche das crianças quando um vizinho chegou. Sabrina o percebeu um pouco afobado. Por sua vez, ao ver a casa cheia o vizinho, Seu Gerônimo, quis dar meia volta e deixar a prosa para uma outra hora.

– Oh, homem! Caminhou até aqui… vejo que está querendo conversar. Venha, tome um café com um bolo quentinho. Entre e sente. Mariazinha disse simpática. 

 – A senhora está com os seus netos e com a moça… deixa para depois. 

 – Nada disso. Por estar com a moça mesmo posso conversar com você. Ela ficará de olho nos pequenos enquanto conversamos. Sente, vou pegar o bolo e o café. 

– Querida, você consegue olhar as crianças e servir o lanche para eles? 

– Sim, claro. Sabrina respondeu rapidamente se sentindo bem por estar ali.

    Da cozinha podia ouvir os suspiros, os porquês do Seu Gerônimo e o olhar sereno e atento de Mariazinha ouvindo. Cansado de falar, menos afobado, era vez dele se calar e escutar Mariazinha. Falava de forma calma, clara e baixa. Não deu para escutar um A. 

   Seu Gerônimo saiu em paz, dava a impressão de que aquela casa por si só tinha aconchego, paz, sabedoria e com Mariazinha tinha flor, pinturas e cheiro de bolo saindo do forno, uma delícia. A casa não seria a mesma coisa sem Mariazinha. 

   Agora era primavera, flores brotando e mais dias de sol e quentes. As estações em Devon, eram bem marcadas pelo clima. No inverno frio e chuva. O outono ameno, a primavera florida bonita para passear e o verão era sol e um clima bem gostoso para estar na rua. 

   Mais gente na rua, menos casacos e cachecóis. Todos respirando do mesmo ar. Tinha até mais sorrisos. Uma estação para se comemorar.  

    Em contrapartida a delicadeza da primavera, os jornais noticiavam um novo vírus na televisão atingindo os humanos. Começou em um continente e já se espalhara de uma maneira assustadora, diziam os especialistas. 

  Sabrina lembrou que já tinha passado algo na TV a dias atrás, circulava em lugares mais distantes e por isso, não foi dada muita atenção.  E o tal vírus que estava distante, se alastrou pelo mundo. De uma hora para outra. Chegou a se perguntar se foi ela que não se atentou muito bem quando apareceu nos jornais. Fecharam todos os comércios. Não pode mais ir até o trabalho, o curso de inglês foi fechado, escolas fecharam. A ordem é ficar em casa. Não pode mais andar pelas ruas apenas para o essencial, supermercados e emergências médicas, basicamente.

    O comércio baixou suas portas, ouviu-se o burburinho em conjunto, – e agora? 

    Cuidem dos idosos e das crianças, os mais vulneráveis nas suas devidas causas. Cuidem-se, estejam a alerta, dizia os noticiários. Os governantes com cara de pânico apareciam na TV sem muito saber o que dizer. Era um vírus que não se sabia muito, quase nada. Pessoas morriam. Assustadoramente, o maior grau de contato acontecia por uma tela de computador. Aulas, trabalho e reuniões importantes. Não podia fazer mais encontros ou visitar amigos. 

     Logo, Sabrina pensou na vizinha. Mariazinha se mantinha em casa. Da janela, Sabrina via a cadeira de balanço vazia. Não escutava os risos e gritos da criançada. A cada dois dias, Sabrina ligava para a Mariazinha. Sempre com uma dose de preocupação a mais:

-Mariazinha, como a senhora está? O que está precisando? 

– Nada, minha filha. Eu estou bem. 

– Nada? E as compras quem está fazendo para a senhora? Era inacreditável para Sabrina que Mariazinha sozinha não precisasse de nada.

– Tenho o suficiente aqui na minha casa. Respondia serena como só ela conseguia até mesmo nesse momento. 

     Sabrina desligava o telefone perplexa, como assim não precisa de nada? Todo mundo precisa de algo ainda mais em momentos como esse. Como ela está, sem poder ir até a varanda e cumprimentar os vizinhos? E os netos que ocupavam a casa, como ela deve estar de saudade? Será que saudade mata? Sabrina se afligia, realmente. 

    Em casa, cada um lidava a sua forma. Um filho não saia da frente das telas, ficava entre computador, celular, vídeo game e series. O outro filho não conseguia ficar em casa não tinha o que fazer, ele dizia.  A não ser perceber quem eram as pessoas que moravam com ele e a relação que ele seria obrigado a manter com a sua família, era demais para ele, saia constantemente. O marido se mantinha ocupado com todas as notícias, principalmente as do seu país de origem. Nunca conseguiu se mudar por definitivo. Alegava que era por conta dos negócios que ainda mantinha no seu país. Sabrina tinha dúvidas. 

 As primeiras semanas foram as mais assustadoras, não dava para se planejar nada, o medo do contágio era enorme e por outro lado, ótimo para descansar e colocar leituras em dia.     Cursos no modo online surgiam de todas as áreas imagináveis. As propagandas eram sedutoras. Sabrina se inscreveu em vários. Foi uma maneira de camuflar o pânico que todos estavam passando naquele momento. Inclusive o dela. 

  Manteve o curso de inglês e o trabalho pelo computador. Mesmo assim sobrava muito tempo, o trabalho foi reduzido para dois dias na semana. 

  Dormia-se muito. Mesmo com as notícias de morte que de alguma forma atrapalhavam e muito o sono. Os pesadelos eram vívidos e aterrorizante. O sono acabava vindo como repouso onde não tem solução. Era uma época estranha como algo que não se sabia quando seria o fim. 

   Tentando manter uma certa rotina mesmo que alterada pelos não mais compromissos, Sabrina tentava a meditação, tomava o café da manhã, esperava a reunião do trabalho e pausava para o almoço. Logo depois, palestra sobre Ayurveda. A noite um filme, talvez aquele documentário sobre as baleias assassinas que vivem em uma parte do Pacífico que está na lista inacabável dos filmes, series e documentários para ver, um dia. Sono, às 2 h da manhã. Depois de ver o documentário e ficar intrigada porque essas baleias estão ocupando somente uma parte do oceano, debate com o marido que a deixa mais intrigada não existe sono que chegue para momentos como esse. Mas também porque esse documentário, logo nesse momento? Ela pensou. 

   Acorda às 10:30 h. A meditação foi para o espaço. O grupo sobre como usar mistura de tintas específicas para os desenhos com flores começa em 30 (trinta) minutos. Tempo para um café, beijo no marido. Sem tempo para saber se os filhos estão vivos. O material que precisará, não está no lugar que deixou. Irritação. Surge uns gritos de raiva. Vê o pote de tinta rosa, caído no canto da sala. Perto da mesa de madeira onde havia deixado. Alguém derrubou e surgem mais gritos. O curso começou. 

– Logo a tinta rosa. Sabrina pensa com raiva.

   Pausa para o almoço, ainda com raiva preparou qualquer coisa. Culpa os filhos por ter derrubado a tinta, ou quem sabe o marido. Ninguém assume o crime. Mais raiva. Ela tem certeza de que alguém derrubou. Em 2 horas terá um grupo de estudos sobre o uso da madeira em móveis de última tendência. Sabrina nem sabe o porquê se inscreveu nesse grupo, mas mantém o seu compromisso online. Não fala nada, entende pouco, acha até meio chato. Se compromete para a semana seguinte. Lembra do módulo de aulas de francês que comprou. Quer aproveitar para aprender uma nova língua. A França é um lugar que caminha nos mistérios da mente de Sabrina. A língua é fascinante e autêntica. Paris é a cidade dos sonhos para Sabrina. Acha o francês elegante e França, a palavra soa sonora, adorável. 

    À noite, está cansada. Muito cansada. Lembra que no dia seguinte precisa terminar os livros que começou a ler e não terminou. São três. Pesa na consciência. 

   Acorda pensando nos livros, visita o quarto dos filhos. Conversa um pouco para ouvi-los. Parece tudo bem. 

     Começa a ler e perde-se no tempo. O marido pergunta o que será o almoço. Sabrina pensa: – Mariazinha está certa. É um menino. Pausa para o almoço. 

  O almoço se entretém com as notícias sobre o vírus. O marido é o porta-voz. Parece tudo está em torno da política e não de um vírus que está matando muita gente. O mundo parece caótico. O mundo não parece ameno nesse momento. Nunca foi. 

    Um dos filhos se sobressai pelo humor com a fala que viu todas as temporadas The Walking Dead, uma serie sobre zumbis que dizima populações com cenas de um comendo a carne do outro e então, por ele ter visto a família estaria a salvo, ele se diz um expert em situações como essa. Uma dose de humor para um momento trágico. 

    Muita coisa para ler, estudar e aprender. O mundo dos computadores torna -se uma ótima fonte de renda. Qual o curso poderia oferecer? Pensa Sabrina.
    A ideia de se manter ocupada fazia com que as pessoas não entrassem em contato com elas mesmas, uma forma bem elaborada de se manterem vivas e longe do vírus. Produzindo como era esperado de muitos, os que pensavam na economia sobre um mundo parado por conta de um vírus. 

   À medida que passava os meses, os dias de sol não são mais os mesmos. O que adianta dias de sol e claros? Não pode usar os óculos escuros. A saia rodada, pendurada a dias sem rodar pelas as ruas de Devon. Que chatice.  

   Quanto mais cursos surgem, mais Sabrina se inscreve. Os curtos e os de médio prazo, somente. Muitos trazem conhecimento, mas o que está camuflando? O que está tampando? Com tudo isso. Ela se perguntava e levava para a terapia. Em dia até o momento.

   Os dias passavam de forma rápida demais e por outro lado, ansiosos demais. Engolia-se tudo que tinha na casa e isso era um problema porque se precisava ir ao mercado mais vezes o que era sempre um risco. O que era tão voraz que se precisava comer e produzir tanto? Perguntas como essa, assombravam o mundo das pessoas, de algumas.
    A meditação não está funcionando. Deixa o grupo de meditação por uns dias. 

     Intensifica a terapia, três vezes na semana. Compromisso total. Mentira! É medo. 

Sabrina estava com raiva e com medo também, não sabia o que fazer. Teve que lidar e olhar a sua família mais de perto. Não sabia mais o que sentia. Tudo estava tão chato. A pressão de que ela precisava dar conta era forte. Ansiedade dos filhos, o marido achando que o mundo iria acabar repetindo várias vezes isso pela casa:
– É o fim do mundo…. é o fim do mundo…
Cada um lidava de uma forma. A morte chegara bem perto. Com um contorno, escura e mórbida. 

   A cada aparição nos noticiários é falado sobre os números de mortos, alarmante. Ninguém consegue dar conta do vírus. Sem vacina, sem remédios por enquanto. Tratava-se alguns sintomas com as medicações disponíveis. Até quando?

  Na profissão em que Sabrina atuava tinha um ar de: quero salvar o mundo. Quando era criança, Sabrina se imaginava sendo a heroína e salvando a humanidade de todos os males possíveis. Na verdade, queria salvar-se do mundo caótico que vivia com os pais. Os dias se passavam e tudo era chato, monótono e arrepiante ao mesmo tempo.
  Ser invisível era algo que Sabrina, algumas vezes mencionava para a sua terapeuta como algo que almejava. Era o momento de tentar. Pediu muito que pudesse se tornar invisível. Ela não conseguia cuidar ou olhar para os problemas alheios. Estava tão inserida no medo de morrer que mal conseguia pensar. A invisibilidade lhe deu um lugar para chorar as suas magoas e frustrações. Na casa, cada um ficava nos seus cômodos, o marido na sala. Se alguém a chamasse ou viesse em horas que ela não queria falar, ninguém a via. É como se ela estivesse em outro cômodo ou tomando banho. Ninguém investigava. Encontrava a família em algumas refeições. Era os poucos momentos que aparecia. Cumpria os compromissos de trabalho e pronto. Largou os cursos. 

   Sozinha, se viu no escuro querendo encontrar uma luz. Algo que acabasse com tudo o que estava ocorrendo com o mundo. Queria andar pelas ruas, observar as flores, ir à casa de Mariazinha. Como poderia resolver isso? Pensava em fórmula para oferecer como imunidade ou algo que resolvesse o fato de estarem sem poder sair as ruas. Teria que ser algo mundial, não adiantaria se resolvesse só ao seu redor. Sabrina ficou uns dias massivamente pensando sobre o que ela poderia fazer para resolver essa questão.

     O fato era que nunca havia trabalhado com componentes químicos para conseguir algo que imunizasse a todos. Pensou nos livros do Pedro Bandeira e as aventuras dos Karas, um grupo de adolescentes que resolviam grandes problemas. Queria fazer parte de um grupo desses agora. Se conseguisse uma fórmula que imunizasse pensou que distribuiria para todos e de graça. Estava longe de fazer algo do tipo, fora do seu alcance. Ao mesmo tempo que pensava em ser uma heroína oscilava na tristeza e no vazio que estava sentindo. Não sabia o que fazer. 

  A invisibilidade estava aumentando o vazio. As pessoas cansaram dos desencontros e não a procuravam mais. Não se ouvia mais o nome mãe, amor ou Sabrina na casa. Isso doía fundo. Pensou em dar um fim a sua vida. Ninguém precisava mais dela. Chorou, em vários momentos e dias. Nesses desabafos percebeu que a vida era oscilante e pulsante. Quis seguir. 

     Ainda com a ideia que poderia tentar salvar o planeta, vasculhou tudo o que podia na internet sobre o vírus. Não chegava a nenhuma conclusão se estava o alcance dela fazer algo, mas ela queria. Desejava. Leu tudo a exaustão. Sonhou com o mundo que ela gostaria. Parecia mais florido e tinha mais pessoas na rua do que o costume. Acordou sorrindo. 

    Conversou com todos na casa para saber se eles tinham mais informações, algo que tivesse passado por ela e que ela não tinha se dado conta. Não, ela estava sabendo de tudo o que família sabia. Foi pesquisar mais. O marido estranhou um pouco esse interesse da esposa por saber tanto sobre o vírus. Achou engraçado. Era divertido ter Sabrina por perto, ainda mais no meio do vendaval que estavam vivendo. Na visão do marido, Sabrina tornava as coisas leves, suaves e sempre tinha algo para surpreender as pessoas. 

   Completou o módulo das aulas de francês, aprendeu mais sobre as maneiras de usar a madeira e descobriu novas combinações de cores para as rosas. Sentiu orgulho de si. 

    Gostaria de conseguir um super antidoto contra esse vírus. Queria visitar Mariazinha. Sair pela rua sem a tensão do vírus. 

   Mesmo que tudo voltasse ao normal, não tinha como ser como antes. O vírus já estava na memória. O medo ficaria ali também registrado. 

  – Mariazinha, querida… como você está? Me conte sobre o que você está precisando. 

 – Nada, Sabrina. Estou bem. Pintando os meus quadros e fazendo os meus bolos, menores, é claro, pois é só para mim e deu uma gargalhada gostosa; daquelas que dava vontade de tascar lhe um abraço, só por aquele som da gargalhada de Mariazinha.

  Conversaram por mais um tempo. Sabrina contou sobre querer descobrir algo para salvar a humanidade. Mariazinha se interessou pelo assunto. Ouviu em silêncio e com atenção. Trocou informações com Sabrina sobre o vírus. 

 Desligaram o telefone, fortalecida pelo papo interessante e descontraído. 

   Sabrina chamou todos para ver um filme. A quanto tempo não assistiam um filme juntos. Desde que os filhos cresceram cada um com os seus gostos, não faziam mais isso em casa. Sabrina foi fazer pipoca enquanto eles discutiam sobre qual filme seria. Observou de longe, riu internamente daquele momento, todos juntos, ali no mesmo cômodo, uma briga danada para escolher um filme. Pipoca pronta. Nada do filme. Sugeriu cada um escrever o nome de um filme da sua escolha colocar em um saco preto, para não haver supostas trapaças e sortear um. Todos concordaram. 

   O filme que saiu pareceu agradar a todos, a princípio. Todos se aconchegaram no sofá. O filho mais novo quis ficar no chão com a cabeça no colo da mãe e outro filho com as pernas no colo do pai. Sabrina sorriu, agora, explicitamente. 

    Que momento bom foi aquele, teve até sanduíches recheados feito pelos filhos.  Conversaram sobre o filme, trocaram até farpas sobre opiniões, coisas de família e o pai quis falar sobre a moral do filme. Sabrina fez alguns contrapontos. O silêncio foi tomando lugar e a conversa acabou. Todos olhando o celular e cada um foi para o seu o quarto. Dessa vez Sabrina quis ficar um pouco mais na sala e o marido foi para o quarto do casal. Na verdade, quis se deliciar mais dos momentos que estavam pela sala após aquelas horas tão saborosas com gosto de sanduíche feito pelos filhos. Se manteve ali, sorrindo em silencio, sentindo. 

     Alguns meses se passaram, o comercio começou a abrir de novo por poucas horas. Era um teste para saber como seria a volta do contato com as pessoas. Será que o vírus voltaria a atacar? Novas regras passaram a fazer parte do cotidiano. Era necessário que se cobrisse todas as partes do corpo. As roupas tinham que ser compridas. Foi necessário tirar as echarpes e luvas do armário para cobrir o restante do corpo. Um óculos especial era vendido a preço populares. Sabia-se que o vírus poderia causar lesões graves no globo ocular. Na boca era necessário, máscaras. Era vendida em qualquer loja na esquina a um preço bem baixo. Várias estampas surgiram para máscaras, luvas e echarpes. Algumas pessoas gostavam de andar combinando.  Virou uma moda.

   Os governantes pediam que não se visitasse os idosos ainda, esperar um pouco mais para ir até a casa deles. Era meio difícil de segurar pois a meses queria-se ver os parentes, abraçá-los, tudo acontecia somente virtualmente. Com o entendimento de amor ao próximo, conseguia manter essa regra. Para alguns, arriscaria que para a maioria.

    O trabalho foi voltando aos poucos. Algumas pessoas quiseram voltar de imediato. Sabrina deixou os seus clientes bem à vontade. Alguns quiseram se manter virtualmente, online. Algumas reuniões de equipe ainda se mantinham virtual, alguns funcionários expressaram a sua opinião e pediram para ser pelo computador por mais um tempo. Todos concordaram.

  O curso foi o que mais demorou a voltar. As aulas finalizaram virtualmente ao final do ano letivo. Com a perspectiva de os testes serem realizados somente no próximo ano. Muitos não gostaram da ideia. 

   Para entrar em um shopping, loja ou estabelecimento que tivesse mais de duas pessoas era obrigatório estar coberto. Não tinha conversa. Caso tivesse sem os óculos, sem a máscara e/ou sem as echarpes não entrava. Ouve alguns tumultos por conta disso. Era estranho passar na porta dos lugares e ver algumas pessoas querendo entrar sem estar devidamente equipada. Algumas eram relutantes. A maioria entendia e olhava com certa preocupação a quem relutava a usar o que iria proteger a todos. 

    Não era surpresa ver os discordantes. Muitas ainda não acreditavam pelo o quê o mundo estava passando achavam que era manipulação midiática ou acreditava em uma corrente conspiratória como se o vírus havia sido injetado em alguém e essa pessoa havia passado para outras, abraçando-as de propósito. O mundo parecia mais estranho que o de costume. Era pesado pensar em como seguiria a humanidade depois daqueles longos meses. Será que os abraços voltarão a acontecer? Poderemos pensar em nos abraçarmos sem pensarmos em sermos contaminados? O medo estará sempre presente nas relações com as pessoas? Perguntas como essa fizeram parte do imaginário das pessoas por muito tempo. 

   Sabrina teve um insight um dia de manhã. Chegou para ela em forma de pensamento que a cura para a população seria a conexão. Sabe-se pela ciência que ter sentimentos bons e cultivá-los nas relações traz boas doses de dopaminas e serotoninas substâncias ligadas ao prazer, então, ela pensou que se essas substância estivessem bem ativas no corpo das pessoas poderia sim ser um caminho para uma imunidade mais alta, logo estaria todos mais longe de ser contaminados. Uma lógica que não se sabe muito bem maiores detalhes e se realmente fazia sentido. O sentido ali era descobrir algo que a tirasse daquele medo de não poder mais abraçar, estar com as pessoas. Essa ideia a animou bastante. Pensou bastante sobre isso. Pensou que quando temos relações com as pessoas estamos conectadas com elas de alguma forma. Mesmo sendo virtualmente. Mas, se procurássemos nos conectar com mais profundidade, conhecendo, compreendendo olhando para as pessoas estando presentes estaria todos mais felizes e mais imunes. 

  Talvez, meio ideológico demais. Sabrina pensou bastante sobre o assunto. Resolveu colocar no papel tudo que o pensava sobre o tema. Escreveu artigos e enviou as revistas. Queria que suas ideias se disseminassem como resposta ao vírus que havia se espalhado. Queria disseminar maneiras de ficarmos imunes. Acreditava que era pela conexão, pelo amor. Ao próximo. 

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Autor: Patricia Oliveira

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