Depois de 5 anos morando fora, escrevi uma carta dizendo, não venham morar fora do Brasil. Mas não seria muito infantil, irresponsável da minha parte dizer algo assim… Acho que minha experiência nesses 5 anos foram muito pautadas em atravessamentos na exclusão, na separação e de habitar em espaços totalmente desconhecidos.
Hoje, com 8 anos morando fora, modifico um pouco essa carta escrita a um tempo atrás, tentarei misturar os sentimentos, não deixando de trazer os sentimentos que me habitaram e que ainda habitam.
No Brasil, temos um péssimo hábito de achar que o que está no exterior é muito melhor. Isso se torna um peso quando você passa a vivenciar o dia-a-dia no exterior. Claro, que existem coisas melhoras, claro que certas coisas funcionam melhor que o Brasil, porém o povo brasileiro e as terras brasileiras até o meu pequeno conhecimento de mundo são inigualáveis. Somos profundos, criativos e especiais. A minha frustração tem sido muito grande, em perceber que eu era essa pessoa que achava isso e me deparar com uma realidade que na verdade, é muito diferente que algumas pessoas pensam no Brasil.
Existe uma burocracia enorme por aqui, e uma desorganização também. A imagem de perfeição (ou quase perfeição) cai por terra.
Aqui se trabalha muito, pessoas trabalhando 12 horas por dia é muito comum, principalmente se você precisa se sustentar e vem sem um trabalho já aqui. Existe possibilidades de turnos de 4 horas, porém isso não sustenta uma casa ou necessidades básicas.
Nos trabalhos, dificilmente terá uma divisão de tarefas igualitárias, todos fazem de tudo, inclusive limpeza.
A “justiça do trabalho” aqui, não é forte, processos custam muito dinheiro.
O povo é educado e amigável até a página 5, e o racismo e a xenobia são muito presentes de forma diplomática. O que torna tudo enlouquecedor.
Ter carro, casa, sim, é possível, as custas de muito trabalho, sem ouvir a sua língua, sem as paisagens maravilhosas do Brasil e sem a hospitalidade do brasileiro.
O tempo – clima- passa ser algo que você nunca notou, mas agora vai passar a ser algo bem notável.
Hoje, depois de 8 anos, digo que para queira vir, venha, mas venha com os pés no chão, eu não vim assim.
O sentimento de ser estrangeira, que já existia em mim no Brasil, se fez mais forte me trazendo desdobramentos bem dolorosos do meu ser.
Autor: Patricia Oliveira
Carta de interesse
Escrevo essa carta para demonstrar o meu interesse em trabalhar nessa area.
Estou em busca de um lugar onde seja um espaço acolhedor, de crescimento e com um olhar aprofundado para o desenvolvimento humano.
Olhei o seu espaço e gostei do que vejo, envio, então a minha carta de interesse.
Além das minha qualificações, os diplomas, me formei, dentro dos conformes pedidos, em uma universidade onde adquiri conhecimentos teóricos. Na minha prática de estágio, fui praticar e assim me vi, frente a frente a outro ser humano com um pouco mais de teoria, porém muita aberta aos afetos.
Como o diploma é tão importante dentro de todas as performances necessárias para atuar nesse mundo emendei em outra jornada teórica de mais um diploma. Pude aprofundar teoricamente e também pessoalmente porque é cada obstáculo performático que nos deparamos que fica difícil descrever. Não tenho a ilusão que isso vai acabar, mas que eu também possa trazer o meu lado não performático, de incertezas, do não-saber e do meu choro silenciado porque muitos vezes precisei mostrar a imagem de forte, e forte na nossa sociedade ainda é atrelada a não sentir, infelizmente.
Poderia mencionar minhas diversas experiências mais ricas que os meus conhecimentos teóricos, poderia mencionar o não nascimento de um filho e o nascimento de um filho, poderia falar dos tipos de relacionamentos que tipos que por mais difíceis me ajudaram a me tornar quem sou, poderia falar das mulheres que me trouxeram muita sabedoria com a sua não sabedoria, poderia falar do desenvolvimento da minha espiritualidade e também das minhas experiencias profissionais atuando com as pessoas que às vezes transformaram a minha vida em um inferno e eu depois de um certo tempo queimei nesse inferno e me refiz. Ah! As pessoas…por mais difícil que eu acho que somos, ainda vejo que nas relações e onde mais crescemos e olha que esse frase é um custo para mim de dizer, mas digo. Insisto. Ainda insisto nas pessoas.
Tenho também algo a falar sobre sobre as minhas atuações profissionais, experiências e conhecimentos teóricos mas acho que a sensibilidade do aprofundamento das relações seriam mais importantes para esse cargo, com pessoas.
Achei que você me esperaria
Achei que você me esperaria até que eu me tornasse uma mãe perfeita para você
Achei que você me esperaria até que eu pudesse me redimir de todos os erros que cometi com você
Achei que você me esperaria até que eu te amasse profundamente sem dúvidas
Achei que você me esperaria
Não foi possível o estrago está feito
o que será possível fazer agora?
Tudo se foi… sentimentos, as máscaras
Já houve amor?
E você, fadado a me ter como mãe
por que?
É justo?
Sofro o seu sofrimento ou o seu sofrimento é por que não sou?
Será que te vejo?
Sim, te vejo, só não sei se ainda te vejo através de mim e por isso não te alcanço
Achei que você me esperaria até eu poder dizer isso a você.
Notas de uma parceria ( Desejos de uma parceria)
Por que agora você quer falar sobre nós?
Por que pensamos que poderíamos ficar juntos?
Mas o ataque é o que nos rege..seguimos nesse modelo.
Aprofundamento, não se consegue quando há ataque. Como não fazer?
Você não gosta do que eu gosto. Eu não gosto do que você gosta. Nesse momento me sinto tão distante. Quase nã0 te vejo. Quem és tu?
Sinto raiva. Você sente raiva.
Eu tenho aprofundado por aqui e parece que aí só se acumula sentimentos. Não conseguimos isso juntos, aprofundar em nós. A tristeza, sentimentos de abandono… que acho que não vem só da relação, mas da bagagem de cada um.
Fiz a melhor coisa que poderia ter feito por mim.
Espero que possamos resolver logo a nossa situação da melhor forma possível e que possamos seguir as nossas vidas saudáveis, felizes e prósperos.
Ah! Você quer que eu retire isso daqui?
E você vai retirar isso daqui, também? É insuportável para mim.
Nesse momento se pudéssemos ouvir os pedidos um do outro tornaria o fim mais agradável.
Mais não será assim, né?
Deveria ter me ouvido, no início de tudo… naquele dia no restaurante, lembra?
É o fim.
Adeus.
Patricia
(4/11/2022)
E você, de novo… vindo à minha mente
O que me resta é escrever-te .
Como você está?
Ainda, continuando nos medos… Você passou por muitos medos, certo? Desde pequeno… perdas grandiosas… como foi?
Como foi para você aquele momento, criança, onde precisou ser invisível para não ser pego?
Como foi estar em um lugar com pessoas desconhecidas?
Depois, novas pessoas cuidando… você se sentiu cuidado?
Perdemos oportunidades de ter tido essas conversas, talvez você tenha estranhado ou me achado distante, nunca perguntei, bem como, você nunca falou; ou não tivemos tempo? Tantas coisas brutais aconteceram nas nossas histórias entrelaçadas que nem sei, o que realmente aconteceu para nunca termos ao menos tocado nesses assuntos. Talvez tenho sido falha minha, não mostrei curiosidade.
Ainda estou passeando pelos medos… como a vida está medonha nesse momento!
Você tem me vindo à mente constantemente. Você também nunca teve muito a família por perto… Eu sinto tanto medo que não é possível que seja tudo meu… penso na família toda e como não trazer os medos à tona? Parece que a nossa história foi construída no medo e raiva. Até que ponto um não é o outro?
E eu sinto muito pela falta de conversa e apoio, pela falta de afeto, pela falta de palavras. O medo, o abandono, a amargura, a tensão, a violência fizeram parte da minha vida por muito tempo e infelizmente foi o que tomou mais lugar. Eu gostaria que tudo tivesse sido diferente.
Gostaria de ter aproveitado mais os bons momentos que tivemos. De ter viajado para a Bahia com você, que os momentos na praia pudessem ter sido mais longos. Gostaria de ter podido deixar a raiva e a tristeza mais de lado e que você também tivesse podido ter feito o mesmo.
Hoje, consigo enxergar melhor, muito trabalho tem sido feito por aqui para que isso aconteça, tenho suado muito… muita dor tem sido tocada. Porém, estou mais esvaziada.
Sigo com a minha vida, diferente de como você seguiu. Com amor e respeito a você.
Um beijo no seu coração.
Um abraço bem apertado.
Até.
Te amo,
Patricia
(08/10/2022)
Como eu poderia não incluí-los nesse momento…
Tenho pensado em vocês. Por que não sei nada sobre vocês?
É estranho pensar em vocês e pensar que, ao mesmo tempo em que estavam perto, sempre estiveram tão longe.
Tenho perguntas… muitas.
Gostaria de poder contar coisas para vocês.
Como ele era quando pequeno? Quando e como foi o momento que vocês os viu pela primeira vez? Como era viver onde viveram? Da onde, mesmo vocês são? Ele “puxou” algum de vocês?
Gostariam de ouvir sobre ele?
Teria muito a falar dele… do seu jeito, de como a sua vida… triste, com muito medo mas teve os seus alcances.
Mas como foi acolhê-lo? Por que ele? Vocês já tinham pensado em ter crianças, tentaram? Aliás, vocês tiveram outras crianças?
Vocês sentiram medo ao tê-lo com vocês?
Ele, provavelmente sim.
E vocês como se conheceram? Vocês conheceram mais pessoas da minha família?
Muitas perguntas… muitos vazios.
Espero que vocês estejam bem.
Com Amor,
Patricia
(08/10/2022)