Vejo as marcas que você deixou
na cara, na face, no peito, no corpo
Não sou só quem ficou com as marcas
sou também quem testemunhou
as memórias não se vão, elas ficam para sempre
viram registros
viram traumas
que possivelmente irão ser passados adiante
com dor, ódio e raiva
isso dobra quando se passa adiante
outro é batido
as marcas agora seguem em filhos, netos e bisnetos
sendo batidos ou testemunhas da dor
o ciclo continuou
para cessar, alguém teve que se dar conta de dores que possivelmente não eram só dessa pessoa, pobre alma
felizardo será quem não precisar ser batido ou testemunhar esse ódio
seja como filho, neto, bisneto, tataraneto…
Autor: Patricia Oliveira
E o ano é de 2025…
Quando eu me for, avise as pessoas que eu trabalho,
diga que por razões inesperadas, eu parti, mas foi um privilégio
trabalhar com essas pessoas. Diga-os que lhe desejo uma vida criativa.
Se não for pedir muito, lhes envie o seu contato, assim eles poderão te contactar caso precisem.
Se eu me for, não chore muito por mim.
Me sinto feliz, parte de mim.
Obrigada por ter me escolhido (você me escolheu?)
Ou nos escolhemos? Mesmo que em outro plano
Nas suas imperfeições, você foi perfeito
Você sempre foi amado, mesmo nos momentos de raiva
Deixe-me ir, sigo feliz.
Não quero caixão, quero contato com a terra ou
quero algo como os vikings, seguir ao mar em uma canoa
e ser queimada e minhas cinzas voando, ali, solta
um pouco para o mar, um pouco para ar, solta, feliz
coloque uma coroa de flores na minha cabeça, nada muito elaborado
algo simples, se possível, uma roupa clara e flores em volta do meu corpo
e deixe o meu corpo seguir ao mar, peça que alguém lance uma flecha e assim queimarei, mas só no corpo
Deixa que o fogo me consuma e me transforme em cinzas
seguirei no coração de cada um que toda vez lembrar de mim
Mas, deixe me ir.
Vejo você
Hoje pensei em você.
Como? Se nem sei quem você é, muito de bem.
Gosto de imaginar que você está em algum lugar desse universo.
Gosto de pensar que conversas poderíamos ter, que olhares trocaríamos?
Pensar que em algum momento, “o falar no olhar ” pode fazer sentido.
Pensar que “o amor é tão bonito”.
Gosto de pensar você ao meu lado respirando perto e eu acariciando esse rosto que não sei como é.
Gosto de imaginar a gente conversando sobre sentimentos, você me contando sobre a sua vida e eu te admirando por cada palavra que és capaz de dizer.
Vejo, nós, de braços e corpo entrelaçados, em quanto você sorri e conversa com mais alguém que está conosco. Ali, sinto o amor e segurança que preciso.
Imagino você tocando violão, lendo um livro e tentando usar um acessório, se olhando no espelho para ver se fica bem, e eu…rindo da situação, pensando que você ficaria bem de qualquer jeito.
Posso ver a gente falando de inseguranças, entre escutas e palavras nos abraçamos.
Posso também imaginar os medos e dificuldades que seria para nos colocarmos, mas o sentido que isso traria para nós.
Posso imaginar, também, a leveza, os sorrisos, o carinho.
Espero que um dia a gente se encontre e viva o que esperamos viver.
Cansaço
É tanto cansaço, tanta tristeza de decepção com a vida que nem sei mais
Se sinto ou se vivo
Se choro ou se morro
Sinto que a vida me espera
Sinto que eu espero pela vida
Me despedaço, estou perto do abismo
Sozinha
No frio
Pulei sem saber, não sei o tamanho, sei que é alto
Só sinto que estou caindo
Os cabelos brancos estão mais visíveis
O corpo está mais cansado
O coração com mais medo
As pernas já não respondem tão facilmente
O desejo continua, danço ou canto?
o esmalte
O esmalte lembra o dia que me casei
Não tinha cor suficiente para mim
Escolhi a que gostei na hora
Cor de nada
Não tinha espaço para me sentir feia
Sentir, naquele momento foi mais do que ser
Se me rejeitassem, eu atacaria e rejeitaria mais
Bebi, muito
Fui superior a tudo e não fui rejeitada. Vazio
Tentei evitá-lo, agora ele é maior que tudo
Olhei para a composição do esmalte com a minha pele. Gostei.
Cor de nada para um corpo vazio
um buraco no mundo, na dor do mundo
da minha dor que é a do mundo
Eu tenho uma dor
Mas não a localizo, se espalhou…
Está pela minha face, quadril, joelhos e nos meus pés
Está em todo mundo, sei que esta lá
Eu sinto e a sinto muito
Forte e presente, pura e ingênua, poderosa, raivosa, vaidosa
Sinto as dores do mundo, as dores do parto, o primeiro respiro em um mundo desconhecido
As dores da morte, e do frio. Tá escuro, preciso ir, não consigo ir…tenho medo
Sinto o luto por pessoas vivas, elas se foram e não voltarão mais
Eu me mudei, mudei e sinto a dor da metamorfose
Estou em luto pela perda da imagem, das roupas elegantes e do cabelo alisado
Estou em luto pela perda da voz e do escutar
Me sinto frágil, na chuva e no vento
Estou em luto por não ter sido quem eu não fui
Estou em luto pelo presente morto, pelo passado assombroso e pela morte de um “certo” futuro promissor
Estou em luto pelo ideal não real