Achei que você me esperaria



Achei que você me esperaria até que eu me tornasse uma mãe perfeita para você
Achei que você me esperaria até que eu pudesse me redimir de todos os erros que cometi com você
Achei que você me esperaria até que eu te amasse profundamente sem dúvidas
Achei que você me esperaria
Não foi possível o estrago está feito
o que será possível fazer agora?
Tudo se foi… sentimentos, as máscaras
Já houve amor?
E você, fadado a me ter como mãe
por que?
É justo?
Sofro o seu sofrimento ou o seu sofrimento é por que não sou?
Será que te vejo?
Sim, te vejo, só não sei se ainda te vejo através de mim e por isso não te alcanço
Achei que você me esperaria até eu poder dizer isso a você.

Amo-te, acima de tudo amo-te
Mas mesmo assim, sinto que não posso mais
Preciso seguir e deixar-te
Por mim, para mim
É dia de seguir, a hora chegou
Vejo vida e caos, com caos
Não sei o que fazer
Se ficar não ficarei bem
Se seguir sei o que pode vir
Mesmo assim a vontade é de seguir
Por mim, para mim
Deixo com você o que é seu
Sigo com o que é meu
Amo-te.

As Marcas

Vejo as marcas que você deixou
na cara, na face, no peito, no corpo
Não sou só quem ficou com as marcas
sou também quem testemunhou
as memórias não se vão, elas ficam para sempre
viram registros
viram traumas
que possivelmente irão ser passados adiante
com dor, ódio e raiva
isso dobra quando se passa adiante
outro é batido
as marcas agora seguem em filhos, netos e bisnetos
sendo batidos ou testemunhas da dor
o ciclo continuou
para cessar, alguém teve que se dar conta de dores que possivelmente não eram só dessa pessoa, pobre alma
felizardo será quem não precisar ser batido ou testemunhar esse ódio
seja como filho, neto, bisneto, tataraneto…

E o ano é de 2025…

Quando eu me for, avise as pessoas que eu trabalho,
diga que por razões inesperadas, eu parti, mas foi um privilégio
trabalhar com essas pessoas. Diga-os que lhe desejo uma vida criativa.
Se não for pedir muito, lhes envie o seu contato, assim eles poderão te contactar caso precisem.

Se eu me for, não chore muito por mim.
Me sinto feliz, parte de mim.
Obrigada por ter me escolhido (você me escolheu?)
Ou nos escolhemos? Mesmo que em outro plano
Nas suas imperfeições, você foi perfeito
Você sempre foi amado, mesmo nos momentos de raiva
Deixe-me ir, sigo feliz.

Não quero caixão, quero contato com a terra ou
quero algo como os vikings, seguir ao mar em uma canoa
e ser queimada e minhas cinzas voando, ali, solta
um pouco para o mar, um pouco para ar, solta, feliz
coloque uma coroa de flores na minha cabeça, nada muito elaborado
algo simples, se possível, uma roupa clara e flores em volta do meu corpo
e deixe o meu corpo seguir ao mar, peça que alguém lance uma flecha e assim queimarei, mas só no corpo
Deixa que o fogo me consuma e me transforme em cinzas
seguirei no coração de cada um que toda vez lembrar de mim
Mas, deixe me ir.

Choro

Hoje, choro pela criança não nascida
Choro pela dor de não ter podido te embalar
Te acolher no seu choro
Celebrar a sua vida
Choro pela vida que não vivemos juntos
Choro pelo o teu choro não acolhido
Choro pelo o seu não nascimento
Choro
Tiraram você de mim e eu concedi
Como eu pude? Só consigo fazer essa pergunta agora
25 anos depois
Choro pelo sangue que jorrou de mim depois que tiraram você
Um sangue forçado
Choro por você não ter conhecido o seu irmão
Como seriam vocês dois?
Como seria nós três?
Choro por você não ter vindo, pela sua não vida, pela sua morte
Celebro a sua curta existência
Pude entender, mesmo que breve, o que é ser mãe de dois.
(02/05/2023)

De cabelo trançado e com um sorriso nos lábios
me faço, pintando
uso rosa, azul e lilás
vou misturar o amarelo com o vermelho
vi o alaranjado e também vi fúria e amor
nos traços do rosa, azul e lilás me percebo no contorno
nos traços me acho
sou eu.


A paz vem quando os olhos sensíveis e acalmados se encontram com a sensibilidade
pela brisa e com o cheiro de mar o coração acelera
o sol aparece trazendo acalanto para os desaquecidos
um casaco de lã para aquecer , dias frios ou corações frios
como uma caneca de chá com fumacinha nos dias que precisamos de um abraço
é sobre frio, é sobre perceber um momento especial que se apresenta.

No meu estojo guardo o lápis que escreve a minha história
a borracha que conserta o meus erros
o apontador que afia os meus passos
as canetas coloridas que dão cor aos dias que só vento e chuva.