Em um dia como esse

Sinto que existo, estou viva.
Cantei e dancei. Tenho voz e corpo.
Toco-me, sinto-me. Olho-me. Acaricio-me.
Me sinto feliz, sozinha, comigo.
Fui feliz por vários instantes, hoje.
Colhi e me vi.
Olhei para dentro, me achei.
Sinto o ar que entra e que sai.
Sinto as batidas do meu coração. Soam como um sino que chama por amor.
Espero por palmas, espero por público. Tenho.
Bato palmas para quem vejo no espelho. Será o suficiente?
Anseio por mais, muito mais. Por quê?

Hoje é dia de dançar sem medo

É carnaval gente bonita
Música para pular e ser feliz
Estou triste de felicidade
Estou com o coração fantasiado de máscara e tudo
Estou com purpurina no peito e saia, rodada, de véu colorido
Estou de cabelos soltos, enrolados, igual moça bonita apaixonada.

Olho para o horizonte a terra sem fim
Caminho sem medo
Escuridão com luz
A luz brilha sutilmente
O ar está refrescante
Vejo a lua no encontro com o mar
O mar, por sua vez, se movimenta em águas calmas e violentas, há um equilíbrio.
Um encanto nas ondas ao se movimentar.
Posso imaginar as águas nos meus pés.
Imagino que mergulho, sinto o sal nos meus lábios, salgando o meu corpo.

Mergulhando mais profundo posso ver o coral, a água viva, e o cardume de peixes listrados. Vejo o esverdeado da água que me parece convidativa, continuo ali. Preciso da água, preciso também da terra para sentir e a lua para admirar, o sol para me aquecer, preciso das estrelas para contar, das árvores para abraçar, preciso da casa de madeira com cortiças coloridas para morar.

Eu quero…

Acho que tudo que eu quero você quer…
Mas é sobre mim. Eu quero me desvencilhar de você. Está forte.
Eu quero me atrever.
Eu quero o meu espaço do meu jeito.
Eu quero sumir, desaparecer, sem deixar vestígios.
Eu quero, eu quero, eu quero…
Eu não quero nada. Só não quero mais estar nessa confusão, nessa incerteza, nessa falta, nessa competitividade, nessa tristeza, nessa falta de ética.
Estou fazendo uma passagem, ainda não sei para onde.
Sinto que preciso morrer, para renascer. Sinto que preciso ir… sinto que…
Não sei o que eu sinto.
Estou despedaçada, em prantos.
Amargurada? Preciso ir… Preciso deixar ir.
Não sei como. Preciso de outro caminho.
Preciso morrer para nascer.

À Dona

Eu sinto muito por termos ficado tanto tempo aqui. Imagino o quão ruim essa situação pode ter sido para você. Ser dona de algo e não conseguir se apropriar disso como seu. Foi injusto com você. Não sei nem se enquanto estávamos lá pensamos em você, eu possível não, era muito pequena. Mas isso também foi injusto. Brigas a todo o redor, afundados em dívidas, problemas e acusações era que se passava e no meio disso você, sem ter nada a ver.
Eu realmente sinto muito e peço desculpas, por mim e pela a minha familia.
Deixo o meu profundo sentimento de desgosto pelo o que aconteceu e desejo que você tenha uma boa caminhada.
Esse lugar foi tudo na minha vida, na minha infância.
Vivi os melhores e os piores momentos da minha vida lá.
Cada canto daquele espaço está na minha memória e vagueia pela minha mente. Lá tem cheiro de infância e vazio, vazio da minha infância.
Não sei porque decidi ter dizer isso, talvez na tentativa de aliviar um pouco a situação, não sei bem.
Desejo tudo bem e que você encontre melhores pessoas que a minha familia no seu caminho.

Adeus.

O útero criado

Porque o útero que estou é tão grosso?
Tento estourar e não consigo
Porque está tão sufocante? Cadê o ar?
– Me notas?
-É perigoso aí fora?
Luto contra
Consigo rasga-te?
Sou uma vítima por estar dentro desse espaço grosso?
Falta-me coragem? Medo?
Ser protegida é o meu objetivo?

(” Sinto que quero nascer, mas não consigo” C. Lispector)