O que me resta é escrever-te .
Como você está?
Ainda, continuando nos medos… Você passou por muitos medos, certo? Desde pequeno… perdas grandiosas… como foi?
Como foi para você aquele momento, criança, onde precisou ser invisível para não ser pego?
Como foi estar em um lugar com pessoas desconhecidas?
Depois, novas pessoas cuidando… você se sentiu cuidado?
Perdemos oportunidades de ter tido essas conversas, talvez você tenha estranhado ou me achado distante, nunca perguntei, bem como, você nunca falou; ou não tivemos tempo? Tantas coisas brutais aconteceram nas nossas histórias entrelaçadas que nem sei, o que realmente aconteceu para nunca termos ao menos tocado nesses assuntos. Talvez tenho sido falha minha, não mostrei curiosidade.
Ainda estou passeando pelos medos… como a vida está medonha nesse momento!
Você tem me vindo à mente constantemente. Você também nunca teve muito a família por perto… Eu sinto tanto medo que não é possível que seja tudo meu… penso na família toda e como não trazer os medos à tona? Parece que a nossa história foi construída no medo e raiva. Até que ponto um não é o outro?
E eu sinto muito pela falta de conversa e apoio, pela falta de afeto, pela falta de palavras. O medo, o abandono, a amargura, a tensão, a violência fizeram parte da minha vida por muito tempo e infelizmente foi o que tomou mais lugar. Eu gostaria que tudo tivesse sido diferente.
Gostaria de ter aproveitado mais os bons momentos que tivemos. De ter viajado para a Bahia com você, que os momentos na praia pudessem ter sido mais longos. Gostaria de ter podido deixar a raiva e a tristeza mais de lado e que você também tivesse podido ter feito o mesmo.
Hoje, consigo enxergar melhor, muito trabalho tem sido feito por aqui para que isso aconteça, tenho suado muito… muita dor tem sido tocada. Porém, estou mais esvaziada.
Sigo com a minha vida, diferente de como você seguiu. Com amor e respeito a você.
Um beijo no seu coração.
Um abraço bem apertado.
Até.
Te amo,
Patricia
(08/10/2022)