Tenho fome de um grupo confidente de mulheres sábias em volta de uma fogueira narrando as suas histórias.
Tenho fome da minha casa, construída, habitada e morada por mim. Com uma varanda que eu possa ter um pouco de natureza e terra para eu colocar as mãos quando precisar lembrar de quem eu sou. Onde eu possa ver o sol nascer e talvez se por, que a lua apareça para mim com estrelas por perto.
Tenho fome de coragem e força de alcançar o que eu quero. De conseguir estar sempre perto do que acredito que me faz feliz.
Tenho fome de dirigir, ruas estreitas e largas, parar em vagas múltiplas e conseguir estacionar em vagas estreitas, se necessário e sair com toda a confiança de uma motorista confiante na sua capacidade.
Tenho fome de solidão.
Tenho fome de me conhecer mais, os lados mais obscuros de mim mesma, que eu tenha tempo para tal.
Tenho fome de uma parceria, companheirismo, alguém que eu possa compartilhar da minha vida, quem eu sou.
Tenho fome de sexo.
Tenho fome de fantasiar.
Tenho fome de presença. Da sustentação da presença.
Tenho fome de discernimento.
Tenho fome de decisão.
Tenho fome de conhecer mais do meu país e da sua diversidade.
Tenho fome de dinheiro e prosperidade permanente.
Tenho fome de ter.
Tenho fome de ser.
Tenho fome de intuir.
Tenho fome de escutar, o meu coração.
Autor: Patricia Oliveira
Notas de uma parceria
(continuação)
Algumas coisas tem sido muito difíceis. Não te alcanço, não sei como dizer. Estamos tão distantes. Já fomos próximos? Fomos? A imagem, o status, os nomes atribuídos dados depois do papel assinado da nossa parceria, nos traz algo…
Mas, não temos afinidades, não compartilhamos as nossas vidas… quem somos nós juntos?
Somos estranhos um ao outro e juntos. Ofensa é moeda de troca, aceitação não existe, assim nos calamos. Porque ainda temos essa parceria? Porque?
O que necessitamos um do outro? Necessitamos um do outro?
Nada é suficiente.
Enfim, digo a palavra, e é isso que quero.
Agradeço o tempo da nossa parceria. Bons momentos foram registrados, risadas, conversas e o fim.
Preciso ir, não consigo mais, nesse modelo.
Espero que me compreenda e que pelo menos o que vivemos de bom seja registrado.
Assim assinamos o papel para a finalização desta, espero que seja assim, com carinho.
Patricia
(Maio/2022)
Ironia para manter a sanidade
Aplicando para um curso de outono em saúde mental, pago por mim mesma, em um lugar frequentemente considerado referência para determinado grupo de pessoas.
Primeiro passo: checar o site.
O curso exige um dia de estágio por semana.
Olho o mapa de lugares para os estágios disponíveis, várias opções perto de mim. Ótimo. Uma delas, inclusive, eu poderia ir caminhando da minha casa.
Envio os documentos.
Duas referências (para quê exatamente?).
O tempo passa.
Entrevista.
Mais tempo passa.
Você foi aceita para o curso. Parabéns.
Ótimo! Fui aceita para pagar um curso. Genial.
(Felicidade de alguém do Sul Global!)
Mas espere… Brincadeirinha! Ainda tem mais uma fase de documentação
E começa uma nova fase.
Mais documentos agora para o estágio.
Algo parece estar errado com os seus documentos.
– Que tipo de problema?
– Apenas uma checagem.
Três minutos em vídeo para provar que não estou aplicando nenhum golpe…
em um curso que eu estou pagando para fazer.
O tempo passa novamente.
Envio minha disponibilidade para o estágio.
O dia é confirmado.
Mais perto do início:
– Infelizmente esse dia já não está disponível.
Reorganizo toda a minha agenda.
Novo e-mail:
A escola mais próxima disponível fica a cerca de duas horas e meia de você.
Mas eu tinha checado isso antes de me candidatar. Havia várias opções perto de mim.
A resposta, simples e singela, vem na sequência: infelizmente não podemos garantir o lugar da sua preferência.
Então surge a pergunta.
Paro por aqui?
Ou continuo depois de todo esse esforço?
Decido continuar.
Tentando seguir em frente no país alheio.
Primeiro trabalho para submissão.
Vinculado ao meu perfil, encontro no sistema o CV de uma gerente do curso, aparentemente colocado ali por engano.
Troca de e-mails.
Eventualmente consigo submeter.
Depois descubro que, devido a um problema técnico, meu trabalho ficou visível para outros alunos por algum tempo. Pedido de desculpas…. ahh, fofo.
No estágio, começo a observar algumas dinâmicas interessantes.
O modelo me pareceu bastante diferente do que eu havia conhecido ao longo da minha experiência.
Em alguns momentos, tive a impressão de que o foco estava mais em relatar do que em refletir.
Sorrisos e falas positivas sobre os atendimentos parecem ser frequentemente valorizados.
Levantar questionamentos sobre práticas que não me parecem tão claras às vezes pode ser percebido como falta de gentileza ou de reflexão.
Questionários de feedback após os atendimentos são apresentados como parte da prática reflexiva —
e ao mesmo tempo parecem contribuir para a obtenção de financiamento.
Devo continuar essa história?
Talvez não.
-Ah! Porque reclamar?
– Não seja negativa!
Isso é só mais um dia na vida de uma imigrante tentando navegar em algo chamado de “país de primeiro mundo”.
🐑 Baahhh talvez seja a resposta mais segura.
Em um lugar onde ser semelhante a um certo grupo: sempre cordial, sempre positiva, parece ser parte do caminho para entrar na fila da aceitação para quem sabe, um dia.
Em um dia como esse
Sinto que existo, estou viva.
Cantei e dancei. Tenho voz e corpo.
Toco-me, sinto-me.
Olho-me.
Acaricio-me.
Me sinto feliz, sozinha, comigo.
Fui feliz por vários instantes, hoje.
Colhi e me vi.
Olhei para dentro, me achei.
Sinto o ar que entra e que sai.
Sinto as batidas do meu coração. Soam como um sino que chama por amor.
Espero por palmas, espero por público. Tenho.
Bato palmas para quem vejo no espelho. Será o suficiente?
Anseio por mais, muito mais. Por quê?
Hoje é dia de dançar sem medo
É carnaval gente bonita
Música para pular e ser feliz
Estou triste de felicidade
Estou com o coração fantasiado de máscara e tudo
Estou com purpurina no peito e saia, rodada, de véu colorido
Estou de cabelos soltos, enrolados, igual moça bonita apaixonada.
Olho para o horizonte a terra sem fim
Caminho sem medo
Escuridão com luz
A luz brilha sutilmente
O ar está refrescante
Vejo a lua no encontro com o mar
O mar, por sua vez, se movimenta em águas calmas e violentas, há um equilíbrio.
Um encanto nas ondas ao se movimentar.
Posso imaginar as águas nos meus pés.
Imagino que mergulho, sinto o sal nos meus lábios, salgando o meu corpo.
Mergulhando mais profundo posso ver o coral, a água viva, e o cardume de peixes listrados. Vejo o esverdeado da água que me parece convidativa, continuo ali. Preciso da água, preciso também da terra para sentir e a lua para admirar, o sol para me aquecer, preciso das estrelas para contar, das árvores para abraçar, preciso da casa de madeira com cortiças coloridas para morar.
Aqui tem…
Mulher
Selvagem
Leoa
Dançante
Poeta
Atriz
Artista
Palhaça
Medonha
Vadia
Vampira
Mais selvagem
De lua
Amorosa
Puta