O útero criado

Porque o útero que estou é tão grosso?
Tento estourar e não consigo
Porque está tão sufocante? Cadê o ar?
– Me notas?
-É perigoso aí fora?
Luto contra
Consigo rasga-te?
Sou uma vítima por estar dentro desse espaço grosso?
Falta-me coragem? Medo?
Ser protegida é o meu objetivo?

(” Sinto que quero nascer, mas não consigo” C. Lispector)

Pessoas tem loucuras diferentes

Querem chamar de loucura, mas só porque é mais fácil nomear, ao que foge aos sentidos.
Não me refiro a loucura do senso comum, ou que sabe sim, a mais presente.
Mas desejo falar da loucura que brilha, dotada de profundeza, que os ditos sãos não alcançam.
O que é ser louco?
Que tem muito contato com a alma? Palavras abruptas? Sem o controle social? A norma…
O que é ser louco? Essa pergunta persevera em mim…
Loucos… repito essa palavra, com todas as letras L O U C O S, repito com gosto
Com gosto de alma, com gosto de vida.
Loucos, loucas, loucxs… pode ser eu, você
Ao olhar de uns, “não pensantes”, ” sem razão”…
O que é ser louco?

Notas de uma parceria…

Não sei muito o porquê dessa carta, mas ela me veio nesse momento e decidi te escrever.
Primeiro queria dizer, muito obrigada. Você me ajudou muito no meu aprofundamento, me conhecer mais e perceber coisas em mim que até então não tinha conseguido ver. Não tem sido fácil esse reconhecimento, mas vejo a importância. A sua parceria tem sido fundamental, nesse ponto, me trazendo reflexos, espalhamentos e projeções. Sinto que essa parceria caminha para o fim, acho que você também sente isso, como poderemos dizer isso um ao outro?
Como é ter uma parceria com alguém que não faz mais sentido?
Entendo a sua posição de me cobrar, exigir igualdade, afinal falo muito sobre isso, igualdade nas desigualdades e acredito também que não dá só para ficar na fala, e você tem me ajudado a olhar para isso. Olhar e perceber o meu lugar nessa parceria tem sido interessante, sou a que faço a limpeza e cuido da manutenção? Me sinto muitas vezes controlando essa área, talvez, porque veja fazendo isso bem, algo preciso me ver fazendo bem. Porém estar nesse lugar sempre, me traz uma ideia do quartinho dos fundos e você com o restante “da casa”. Um modelo de parceria de antigamente, homem no controle financeiro e a mulher com o restante. Anseio por igualdade. Seria só no discurso?
Mediante a problemas não ditos, não olhados entre nós, a jornada do meu auto-conhecimento tem sido solitária, eu tenho procurado espaços para me desenvolver. Deveríamos falar sobre a falta de tesão nessa parceria?
Quais são as nossas expectativas em relação ao outro?
Não tenho mais tanta vontade da sua presença, porém ansio por presenças, quero estar ao redor de pessoas que tenham o mesmo anseio. Sinto falta do meu passado, antes de conhecer, sabe aquele tempo?
Imagino que você também anseia por mais, isso não te incomoda?
Temos abertura para falar tudo um com outro, ou nossa parceria se restringe somente a um contrato, ao papel de cada um?
Você já cogitou a hipótese que certos pessoas ao seu redor não me interessa estar com eles? Já cogitou que a divisão nessa parceria está meio desigual? Acredito que para os dois lados…
Fico por aqui, com um obrigada mas também percebendo que os nossos caminhos serão diferentes.

Patricia
(Nov/2021)

E o ano é de 2025…

Quando eu me for, avise as pessoas que eu trabalho,
diga que por razões inesperadas, eu parti, mas foi um privilegio
trabalhar com essas pessoas. Diga-os que lhe desejo uma vida criativa.
Se não for pedir muito, lhes envie o seu contato, assim eles poderão te contactar caso precisem.

Se eu me for, não chore muito por mim.
Me sinto feliz, parte de mim.
Obrigada por ter me escolhido (você me escolheu?)
Ou nos escolhemos? Mesmo que em outro plano
Nas suas imperfeições, você foi perfeito
Você sempre foi amado, mesmo nos momentos de raiva
Deixe-me ir, sigo feliz.

Não quero caixão, quero contato com a terra ou
quero algo como os vikings, seguir ao mar em uma canoa
e ser queimada e minhas cinzas voando, ali, solta
um pouco para o mar, um pouco para ar, solta, feliz
coloque uma coroa de flores na minha cabeça, nada muito elaborado
algo simples, se possível, uma roupa clara e flores em volta do meu corpo
e deixe o meu corpo seguir ao mar, peça que alguém lance uma flecha e assim queimarei, mas só no corpo
Deixa que o fogo me consuma e me transforme em cinzas
seguirei no coração de cada um que toda vez lembrar de mim
Mas, deixe me ir.

Conto – Menina Mulher

Menina e Mulher…chora que é dia. 

Chora minha Menina. 

Chora que é a hora.

Chora, Mulher! É o momento!

Momento que você esperou tanto tempo 

Para desabar e chorar. 

Chora com a dignidade que lhe pertence. Que lhe salvará dessa vida mesquinha que você mesmo entrou. Apertada. Pequena. 

Chora, minha querida. Agora é hora. 

Chora no colo de quem pode suportar, suas dores, males e raiva. 

E que venha mais sentimentos… 

Só você pode aquecê-los. 

Chora meu amor, chora como criança no colo de uma adulta. 

Chora com a sua criança que se perdeu no caminho 

 Hoje, você adulta pode acolhê-la. 

Nina-te como se fosse um bebê.

Um bebê pequeno e que precisa de amor. 

Entrelace-o no seu colo crescido e forte. 

Ofereça-lhe o que ele precisa, você sabe o que é. 

Olhe dentro. Para dentro.

Hoje você pode dar. Você se nutriu.

Esperneei o quanto for preciso e 

Quando passar o choro incansável 

Beija-te a testa, a bochecha a boca, a sua.

Olhe nos seus olhos.

Diga com doçura e firmeza: tudo ficará bem.

Segue o seu caminho com flores e espinhos. 

Com sol e chuva. Chorando e nutrida.

Conto: Vozes – E se eu surtasse?

E se eu surtasse o que poderia acontecer?
Seria internada em uma clínica psiquiatra, oras!
Quem me internaria? Quem faria o trabalho sujo?
Seria bem tratada ou tomaria choques? Ficaria catatônica devido a forte medicação?
Talvez.
Mas também poderia me manter em casa, afinal ter alguém internado é meio que vergonhoso.
Será que eu conseguiria escapar, e andar nua pela rua? Ao menos de camisola…
Penso que só não poderia ser aquela de velhinha de hospital psiquiátrico, é muito sem graça! Sou muita nova!
Poderia ser uma mais “ajeitadinha”, não muito sexy para não atrair ninguém, vai que me vejo fazendo sexo ao lua com uma pessoa estranha, me descobriria uma ninfomaníaca?
Ixi, aí seria o caos… mulher, surrada, fazendo sexo na rua, histérica na certa!
Foi-se…
Bom, pelo menos ficaria apenas no meu mundo, eles que se danem! Assistiria os ditos sãos, dizendo que sou louca, riria da cara deles… Eu, louca?
Logo, eu? Formada…
– você, formada?
– sim, pelo vida, a melhor faculdade!
Quem viria me visitar na clínica? Se eu fosse para uma
Eu faria bons amigos? Será que se ver louca, aumentaria por ser mais louca?
Seria mais leve, ter um mundo a parte?

Procuro algo que não encontro no mundo dos são idealizo um mundo meu. O que procuro?
No fundo, tenho medo de ser louca, a loucura é um fantasma e sedutora. Quem entende da loucura?

É tão cansativo, não consigo dormir… deito, apago, meu corpo pesa, não dormi, foi o efeito do remédio. O despertador toca, já estava acordada. Cansada. Não quero pensamentos, só por hoje. Mas eles vem e são maiores que esse pensamento… Não quero levantar da cama, não me mexo, tento me enganar para voltar a dormi, tudo está pesado, quero ir para longe. Ser levada. Me imagino sendo quem eu não sou.
Levanto.