Blog

Ironia para manter a sanidade

Aplicando para um curso de outono em saúde mental, pago por mim mesma, em um lugar frequentemente considerado referência para determinado grupo de pessoas.

Primeiro passo: checar o site.
O curso exige um dia de estágio por semana.

Olho o mapa de lugares para os estágios disponíveis, várias opções perto de mim. Ótimo. Uma delas, inclusive, eu poderia ir caminhando da minha casa.

Envio os documentos.
Duas referências (para quê exatamente?).

O tempo passa.

Entrevista.

Mais tempo passa.

Você foi aceita para o curso. Parabéns.
Ótimo! Fui aceita para pagar um curso. Genial.
(Felicidade de alguém do Sul Global!)

Mas espere… Brincadeirinha! Ainda tem mais uma fase de documentação
E começa uma nova fase.

Mais documentos agora para o estágio.
Algo parece estar errado com os seus documentos.

– Que tipo de problema?

– Apenas uma checagem.

Três minutos em vídeo para provar que não estou aplicando nenhum golpe…
em um curso que eu estou pagando para fazer.

O tempo passa novamente.

Envio minha disponibilidade para o estágio.
O dia é confirmado.

Mais perto do início:

– Infelizmente esse dia já não está disponível.

Reorganizo toda a minha agenda.

Novo e-mail:
A escola mais próxima disponível fica a cerca de duas horas e meia de você.

Mas eu tinha checado isso antes de me candidatar. Havia várias opções perto de mim.

A resposta, simples e singela, vem na sequência: infelizmente não podemos garantir o lugar da sua preferência.

Então surge a pergunta.

Paro por aqui?
Ou continuo depois de todo esse esforço?

Decido continuar.
Tentando seguir em frente no país alheio.

Primeiro trabalho para submissão.

Vinculado ao meu perfil, encontro no sistema o CV de uma gerente do curso, aparentemente colocado ali por engano.

Troca de e-mails.
Eventualmente consigo submeter.

Depois descubro que, devido a um problema técnico, meu trabalho ficou visível para outros alunos por algum tempo. Pedido de desculpas…. ahh, fofo.

No estágio, começo a observar algumas dinâmicas interessantes.

O modelo me pareceu bastante diferente do que eu havia conhecido ao longo da minha experiência.
Em alguns momentos, tive a impressão de que o foco estava mais em relatar do que em refletir.

Sorrisos e falas positivas sobre os atendimentos parecem ser frequentemente valorizados.

Levantar questionamentos sobre práticas que não me parecem tão claras às vezes pode ser percebido como falta de gentileza ou de reflexão.

Questionários de feedback após os atendimentos são apresentados como parte da prática reflexiva —
e ao mesmo tempo parecem contribuir para a obtenção de financiamento.

Devo continuar essa história?

Talvez não.
-Ah! Porque reclamar?
– Não seja negativa!

Isso é só mais um dia na vida de uma imigrante tentando navegar em algo chamado de “país de primeiro mundo”.

🐑 Baahhh talvez seja a resposta mais segura.

Em um lugar onde ser semelhante a um certo grupo: sempre cordial, sempre positiva, parece ser parte do caminho para entrar na fila da aceitação para quem sabe, um dia.

À Dona

Eu sinto muito por termos ficado tanto tempo lá.
Imagino o quão ruim essa situação pode ter sido para você. Ser dona de algo e não conseguir se apropriar disso como seu. Foi injusto com você. Não sei nem se enquanto estávamos lá pensamos em você, eu possível não, era muito pequena. Mas isso também foi injusto.
Brigas a todo o redor, afundados em dívidas, problemas e acusações era que se passava e no meio disso você, sem ter nada a ver.
Eu realmente sinto muito e peço desculpas, por mim e pela minha família.
Deixo o meu profundo sentimento de desgosto pelo o que aconteceu e desejo que você e os seus tenham uma boa caminhada.
Esse lugar foi tudo na minha vida, na minha infância.
Vivi os melhores e os piores momentos da minha vida lá.
Cada canto daquele espaço está na minha memória e vagueia pela minha mente e sonhos. Lá tem cheiro de infância e vazio, vazio da minha infância.
Não sei porque decidi ter dizer isso, talvez na tentativa de aliviar um pouco a situação, não sei bem.
Desejo tudo bem e que você encontre melhores pessoas que a minha familia no seu caminho.

Adeus.

Em um quarto de hotel

Estou em um hotel, aguardando duas pessoas convidadas por mim. As escolhi na internet. Estou as esperando de forma casual, informal, à vontade.
Passei agua de cheiro, estou pronta.
A roupa que usei ao longo do dia, está ali, bem perto, pendurada, uma roupa de tecido. Calça de tecido e blusa de botão. Me sinto bem com esse conjunto e também sem ele.
Marquei com essas pessoas com um intervalo de meia hora entre as duas.
Na internet pareciam bonitas, um corpo apreciável na minha opinião.
O telefone tocaiara avisar que a primeira chegou. Abro a porta, um beijo, parecia que já nos conhecíamos a muito tempo. Me sinto à vontade, cada vez mais… Se passam meia hora, a outra pessoa chega, eu bem a vontade, a outra pessoa não tanto, abro a porta, eu inicio um beijo como conhecidas; Sou a única bem à vontade no meio dessas pessoas.
Me coloco bem perto de uma delas, em quanto encosto parte do meu rosto na outra pessoa.
Me movo, peço algo, em quanto estou bem próximo da outra pessoa. Mostro o que quero e como quero.
Ok.
Enquanto elas se compõe digo o quero dessa vez, e usando algo que aponto ali na mesinha.
Elas gostam, demonstram atenção. Me deixo ir, pelo perfume, pelo momento, pelas pessoas. Tudo fica mais fácil de uma certa maneira, usando o que pedi para usar. Paciência e sentir….o momento. Viajo no momento.
Ok.
Ok.
As olhos dentro dos olhos, me movo, uma me olha e entende e faz o mesmo, se move, devagar.
Presentes e penetráveis, assim.

Notas de uma parceria…

Não sei muito o porquê dessa carta, mas ela me veio nesse momento e decidi te escrever.
Primeiro queria dizer, muito obrigada. Você me ajudou muito no meu aprofundamento, me conhecer mais e perceber coisas em mim que até então não tinha conseguido ver. Não tem sido fácil esse reconhecimento, mas vejo a sua importância. A sua parceria tem sido fundamental, nesse ponto, me trazendo reflexos, espalhamentos e projeções. Sinto que essa parceria caminha para o fim, acho que você também sente isso, como poderemos dizer isso um ao outro?
Como é ter uma parceria com alguém que não faz mais sentido?
Entendo a sua posição de me cobrar, exigir igualdade, afinal falo muito sobre isso, igualdade nas desigualdades e acredito também que não dá só para ficar na fala, e você tem me ajudado a olhar para isso. Olhar e perceber o meu lugar nessa parceria tem sido interessante, sou a que faço a limpeza e cuido da manutenção? Me sinto muitas vezes controlando essa área, talvez, porque veja fazendo isso bem, algo preciso me ver fazendo bem. Porém, estar nesse lugar sempre, me traz uma ideia do quartinho dos fundos e você com o restante “da casa”. Um modelo de parceria de antigamente, homem no controle financeiro e a mulher com o restante. Anseio por igualdade. Seria só no discurso?
Mediante a problemas não ditos, não olhados entre nós, a jornada do meu auto-conhecimento tem sido solitária, eu tenho procurado espaços para me desenvolver. Deveríamos falar sobre a falta de tesão nessa parceria?
Quais são as nossas expectativas em relação ao outro?
Não tenho mais tanta vontade da sua presença, porém ansio por presenças, quero estar ao redor de pessoas que tenham o mesmo anseio. Sinto falta do meu passado, antes de conhecer, sabe aquele tempo?
Imagino que você também anseia por mais, isso não te incomoda?
Temos abertura para falar tudo um com outro, ou nossa parceria se restringe somente a um contrato, ao papel de cada um?
Você já cogitou a hipótese que certos pessoas ao seu redor não me interessa estar com eles? Já cogitou que a divisão nessa parceria está meio desigual? Acredito que para os dois lados…
Fico por aqui, com um obrigada, mas também percebendo que os nossos caminhos serão diferentes.

Patricia
(Nov/2021)

Menina Mulher

Menina e Mulher…chora que é dia. 

Chora minha Menina. 

Chora que é a hora.

Chora, Mulher! É o momento!

Momento que você esperou tanto tempo 

Para desabar e chorar. 

Chora com a dignidade que lhe pertence. Que lhe salvará dessa vida mesquinha que você mesmo entrou. Apertada. Pequena. 

Chora, minha querida. Agora é hora. 

Chora no colo de quem pode suportar, suas dores, males e raiva. 

E que venha mais sentimentos… 

Só você pode aquecê-los. 

Chora meu amor, chora como criança no colo de uma adulta. 

Chora com a sua criança que se perdeu no caminho 

 Hoje, você adulta pode acolhê-la. 

Nina-te como se fosse um bebê.

Um bebê pequeno e que precisa de amor. 

Entrelace-o no seu colo crescido e forte. 

Ofereça-lhe o que ele precisa, você sabe o que é. 

Olhe dentro. Para dentro.

Hoje você pode dar. Você se nutriu.

Esperneei o quanto for preciso e 

Quando passar o choro incansável 

Beija-te a testa, a bochecha a boca, a sua.

Olhe nos seus olhos.

Diga com doçura e firmeza: tudo ficará bem.

Segue o seu caminho com flores e espinhos. 

Com sol e chuva. Chorando e nutrida.

Vozes – E se eu surtasse?

E se eu surtasse o que poderia acontecer?
Seria internada em uma clínica psiquiatra, oras!
Quem me internaria? Quem faria o trabalho sujo?
Seria bem tratada ou tomaria choques? Ficaria catatônica devido a forte medicação?
Talvez.
Mas também poderia me manter em casa, afinal ter alguém internado é meio que vergonhoso.
Será que eu conseguiria escapar, e andar nua pela rua? Ao menos de camisola…
Penso que só não poderia ser aquela de velhinha de hospital psiquiátrico, é muito sem graça! Sou muita nova!
Poderia ser uma mais “ajeitadinha”, não muito sexy para não atrair ninguém, vai que me vejo fazendo sexo ao lua com uma pessoa estranha, me descobriria uma ninfomaníaca?
Ixi, aí seria o caos… mulher, surrada, fazendo sexo na rua, histérica na certa!
Foi-se…
Bom, pelo menos ficaria apenas no meu mundo, eles que se danem! Assistiria os ditos sãos, dizendo que sou louca, riria da cara deles… Eu, louca?
Logo, eu? Formada…
– você, formada?
– sim, pelo vida, a melhor faculdade!
Quem viria me visitar na clínica? Se eu fosse para uma
Eu faria bons amigos? Será que se ver louca, aumentaria por ser mais louca?
Seria mais leve, ter um mundo a parte?

Procuro algo que não encontro no mundo dos são idealizo um mundo meu. O que procuro?
No fundo, tenho medo de ser louca, a loucura é um fantasma e sedutora. Quem entende da loucura?

É tão cansativo, não consigo dormir… deito, apago, meu corpo pesa, não dormi, foi o efeito do remédio. O despertador toca, já estava acordada. Cansada. Não quero pensamentos, só por hoje. Mas eles vem e são maiores que esse pensamento… Não quero levantar da cama, não me mexo, tento me enganar para voltar a dormi, tudo está pesado, quero ir para longe. Ser levada. Me imagino sendo quem eu não sou.
Levanto.